A FOREBODING TRAIL PROMPT


Authors
kazehanatenshi
Published
1 year, 7 months ago
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Você acorda. É um dia tão pacato quanto qualquer outro. Você se sente cansado, assim como se sentira na noite anterior. As olheiras já eram parte do seu ser, carregando o peso de centenas de noites mal dormidas. Com um pouco de dificuldade, você se levanta, piscando para ver se assim o seu quarto entraria em foco novamente.

A partir daí, você continua o resto do seu dia exatamente da mesma forma. Há algo de reconfortante na rotina, ao mesmo tempo que você a deteste. Fazer um café, preparar o café da manhã, comer olhando para a sua sala, pensando sobre como você realmente deveria repintá-la, pois as paredes estavam começando a descascar e isso realmente o incomodava. E, quando você se cansava de ruminar esse pensamento, olhava então por uma das janelas, para admirar os campos verdes de Goldfair.

Você gosta de onde mora (gosta?). Goldfair é o lugar perfeito, quieto, pequeno, rural. Os outros pouflons daqui eram amigáveis, e apesar de você não ser a pessoa mais amigável do mundo, tinha alguns amigos e conhecidos aqui e ali. 

Um que lhe vinha a mente, era um de seus vizinhos, que volta e meia deixava presentes na sua porta, com uma pequena nota desejando-lhe um bom dia, ou coisa do gênero. Pequenas coisas como essa te faziam sorrir. Pensar que o tédio dos dias iguais valiam a pena (valiam? Às vezes você não tinha certeza).

Você pisca algumas vezes. Termina de mastigar sua saladas, com urgência quase imperceptível. Toma um gole do café, e vai até seu quarto novamente. Hora de acordar Morango, seu loupine branco.

“Vamos, seu preguiçoso”, você diz ao vê-lo em formato de bolinha na cama, usando um de seus cascos para cutucá-lo “está na hora de ir pro parque.”

Um grunhido é o que recebe de resposta. A cauda de morango até se move um pouco, pra cima e para baixo, mas isso é tudo.

“Vem, você não quer sair?”

A palavra provocou uma reação instantânea. Morango se levantou com um latido, balançando a cauda com animação. Logo em seguida, se espreguiçou, e foi correr em direção ao gancho onde você guardava sua coleira, pulando e latindo na sua direção. Você ri, e logo pega a coleira.

Assim que você sai do quarto uma segunda vez, percebe algo de errado. 

Pela janela, o que vê não é mais grama fofa, plantas, árvores e uma plantação de algum dos fazendeiros ao longe. Era um cenário completamente diferente do que vira, o que, minutos atrás? Não podia estar certo.

Você engole a própria saliva. Acha que é o cansaço. Até fecha os olhos, sacode a cabeça. Uma alucinação, talvez? Não era impossível.

Quando os abre, é a mesma coisa, e você não sabe como se sentir sobre isso. Era como se as cores haviam sido roubadas da natureza. Tudo o que havia agora eram plantas mortas, árvores pretas

E vermelho. Um líquido estranho, viscoso, quase como água (porque você não queria pensar no que mais aquilo podia ser) escorrendo de árvores, molhando o chão. Até o ar parecia diferente, mais pesado.  É simples. Está perto da sua casa. E é bizarro.

O que está acontecendo?

Você até olha de volta para Morango, encontrando nada mais que seu rosto animado por sair, e considera a possibilidade de ter ficado maluco. Talvez tenha sido o excesso de café e as noites mal dormidas. Talvez tenha comido alguma planta diferente. Com certeza estava vendo coisas.

Você considera não sair de casa. Obviamente, não era a melhor das opções. Deveria ver algum curandeiro para ajudá-lo, dizer o que havia de errado (porque você não queria acreditar que, de um momento para o outro, da noite pro dia, uma doença misteriosa destruiu as fazendas de Goldfair), mas o puxão que Morango dá em sua coleira o traz de volta a realidade. Você olha para o Loupine.

“Já olhou lá fora hoje, amiguinho?”

O Pippet o encara. Uma orelha treme.

Um suspiro deixa sua boca, e você está colocando a coleira em Morango, guiando-o para fora de casa.

A visão de fora da sua casa era ainda pior. Porque não havia sumido, estava ali ainda. Perto de sua casa resta apenas alguns passos de grama ainda verde, o que lhe parecia ainda mais estranho. O ar continua pesado, tornando difícil de respirar, te deixando com um medo descomunal. 

“O que…”

Não. Algo estava errado. Muito, muito errado. Um arrepio passa por todo seu corpo ao perceber, do topo da cabeça até a ponta da cauda. Tem certeza que você não está alucinando, pois até mesmo seu Loupine para de tentar correr como antes, invés disso travando no lugar, deixando um grunhido assustado escapar.

Você vai em direção a fauna morta. Aproxima uma pata, mas quando seus cascos deslizam sobre a grama acinzentada, um soluço quebra sua garganta, fazendo seu corpo tremer o suficiente para te deixar de joelhos. Seus olhos se arregalam.

“O que é isso?” você tenta falar, a voz soando quebrada.

Você não tem tempo de achar a resposta. Tudo que vem em seguida é o que você pensa ser a pior sensação da sua vida, repleta de dor. É como se alguém, algo, estivesse puxando sua alma, retirando-a de seu corpo. E havia o frio. Seu corpo inteiro estava frio, como se a primavera nunca tivesse visto Bellacoste.

Você não consegue respirar. Você tenta se mover, para descobrir que não consegue, pois seu corpo não pertence a ti. Está agora preto, a imagem tremendo no ar, se tornando o mesmo que vira antes: uma doença terrível e incompreensível que mata tudo que toca. Você tenta gritar, tenta conjurar suas asas, e você percebe com terror que não consegue. Tudo o que você consegue fazer é sentir dor.

Ainda assim, você ainda consegue ver o pelo branquinho do seu Pippet, o medo em sua expressão rapidamente se tornando em terror. É  a última coisa que você vê antes de fechar os olhos.

O tumulto dentro de seu corpo continua. O seu corpo inteiro voltou a tremer, as sensações eram tantas que você mal podia descreve-las. Era uma ação tão simples, tocar a grama morta. E ainda assim, isso aconteceu. Por quê? Por quê? Por quê?

A última coisa que você ouve é algo que nunca ouvira antes: um rugido estridente, mas não soava certo, era como se você estivesse ouvindo junto com estática. 

E então, você não era o mesmo.