Skyward


Authors
kazehanatenshi
Published
1 year, 7 months ago
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883

I was very inspired by this song: https://youtu.be/yhcoumnkzCM

makes no sense right?

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Mas você conseguia ver o céu.

Mesmo no seu estado, onde você mal conseguia distinguir o que era seu próprio corpo, você consegue olhar pra cima, de boca aberta, e arregalar seus novos olhos vermelhos. 

E, oh, que visão perturbadora era. 

Estava quebrado. Por mais impossível que fosse, estava quebrado, repleto de rachaduras visíveis que não faziam o menor sentido. E mesmo no fundo de sua mente, onde ainda havia um pingo de sanidade, você não conseguia compreender. É impossível. Te enchia de perguntas sem respostas, das quais o que quer que você era agora, detestava. Te enchia de sentimentos incompreensíveis, talvez não mais que o céu acima de você.

Como o céu quebrou assim? O que significava? Seria por isso que o mundo ficou distorcido? Teria essa corrupção escorrido para Goldfair por causa do buraco? Para onde mais teria ido? Como é possível?

Oh, mas você era uma criatura sem consciência (ou pelo menos deveria ser). Você não devia se preocupar com isso. Você não devia nem olhar de volta na direção do Loupine, também corrompido. Você grunhe, um som agonizante, e começa a caminhar. Era isso que devia lhe preocupar: o fato de cada passo te fazer não sentir uma parte diferente de seu corpo, ou como sua cauda, de ponta esfumaçante, parecia instável. Como se seu corpo estivesse incerto se existia ou não.

Você não pensa. Você é feito de nada. Nada além de dor.




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Tulipa foi acordada pelo som característico de seu Puppea arranhando a porta do quarto, pedindo para sair. Pinky fazia isso todos os dias, quase como um Ichigato carente que servia de despertador.

“Bom dia pra você também, Pinky”, ela murmura, com a voz ainda grogue de sono, mas não sem um pouco da animação característica que ela sempre tinha. 

Tulipa usa uma de suas asas para afastar o cobertor, e com um último bocejo, ela se levanta de fato. Pinky, é claro, continua arranhando a porta, soltando alguns choros para chamar a atenção da dona. Ela abre a porta de longe, pensando em arrumar primeiro a bagunça que seu cabelo (e pelo) ficava todas as manhãs - como ele conseguia esse feito, Tulipa não tinha ideia.

Depois de abrir  a porta para o Pippet, ele não parou aí com os choros. Não foi só isso que ela notou: havia alguém em sua porta! Uma visita assim tão cedo?

“Tulipa! Tulipa! Você está aí?” Chama uma voz, a qual a mente enevoada de sono de Tulipa ainda não conseguia distinguir de quem. A dona chamava com urgência; 

Tulipa logo foi atender.

“Oi, oi… bom dia…” deixou um bocejo escapar.

“Tulipa! Finalmente você abriu essa porta.”

“Oh, oi Chorus! O que te traz aqui hoje?” pergunta, já  se animando, mas a Pouflon rosa logo a interrompe.

“Vim te chamar pra ir embora comigo. Do jeito que você é, nem deve ter percebido nada…”

Tulipa só a encara, erguendo uma sobrancelha. Como de praxe, Chorus continua a falar.

“Você viu o céu, menina? Não sei o que está acontecendo, mas apareceu uma rachadura enorme nele!” A outra pouflon arregalou os olhos, em parte achando engraçado. Brincadeira curiosa, essa. “E não é só isso! Ah, eu posso te contar no caminho.”

“No caminho de que? Pra onde você quer ir?”

“Só longe daqui!  Anda, pega suas coisas.”

“Mas a minha loja!” tentou argumentar, ganhando apenas uma carranca da outra pouflon.

Claro, Tulipa precisou de mais insistência da parte de Chorus para que ela de fato se organizasse. Pela janela, conseguia ver o céu, e para sua surpresa, Chorus estava falando a verdade.

Ela não conseguia de fato descrever o que estava vendo. Seu estômago fez um nó em si mesmo, e ela sentia o medo borbulhar bem lá no fundo. Era como se o céu tivesse quebrado. Havia uma rachadura, que a lembrava vagamente de porcelana quebrada (o que era arrumável, oras, logo esse céu também era). 

Junto de Chorus, as duas voaram para longe de Goldfair. Tulipa escutou e viu o cenário como um borrão. Sentia-se incapaz de compreender o que estava acontecendo. Tulipa sempre foi boa em reprimir seus próprios sentimentos, e nesse caso, por mais difícil que fosse, não era diferente. A explicação da amiga lhe soou abafada, pois tudo que ela conseguia ver (em borrão, é um detalhe importante) em seu caminho era o absoluto desastre em sua cidade natal.

Tanto vermelho. Tanto preto. Tantas plantas mortas, fazendas inteiras com suas plantações num tom amarelado, doente: depressivo, de fato. Um pensamento rápido passou por sua cabeça: por que isso parece tão errado?

Eventualmente, ela foca a visão em Chorus, preferindo ouvir sua voz (abafada, estaria Tulipa debaixo d’água?) do que olhar os borrões ao seu redor. Tudo estava errado, faltava sentido, algo dentro dela gritava: isso é impossível, não pode estar acontecendo, não está acontecendo, por favor PARE. Tulipa não iria lidar com isso. Não agora.

Então, ela foge.